«Estes textos são apenas ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.»

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

JAMAIS ME ESQUECEREI



Disse-me o amor da minha vida:

"Levaste a minha vida,
a minha alma.
Está tudo contigo.
Só o corpo está comigo.
o resto está em ti".

TÃO BOM...


Levantar os braços e sentir o mundo em mim.

DIZIA-LHE ELA…



“Adoro ouvir palavras bonitas…”
Ao mesmo tempo entregava o corpo a quem lhe dizia:
“Amo-te”
Não quis ouvir e ver mais.
Fui apanhado numa cordilheira  que  não me pertence.
Mas fiquei  a saber que:
O amor cigano é maravilhoso.

HOJE ESTOU MEIO 'ASSIM-ASSIM’




Sinto a falta de algo…
Talvez da minha outra meia parte.
Não a tenho comigo.
Tornou-se uma vadia.
Foge de mim como se eu fosse “não sei o quê”.
Não gosto que ela me deixe  porque podem  roubá-la.

Esta vadiagem faz-me vadiar por outros caminhos.
Hoje percorri um caminho do tempo.
Na busca de  broa de milho e rodelas de chouriço.
Ambos do bom.
Mas faltou-me a companhia interior do copo.
Sempre esperei que a trouxessem.
Mas não!
Estou condenado a estar sozinho e a não ter comigo a minha outra meia  parte.
Um dia destes vou vadiar com alguém que nunca vadiou.

O mistério da mala de cartão





Por: António Centeio

Todos os meses fazem a viagem habitual até Vila Velha de Ródão. O velho automóvel já está habituado às subidas da serra. Nunca se queixa do esforço que lhe exigem como do peso que leva, talvez por a estrada fazer deslizar as rodas sem qualquer solavanco como nos tempos que saiu do “stand”.
Os ocupantes já não passam sem a beleza estonteante da serra como da paisagem que cativa quem a saiba apreciar. Depois: o cheiro que vem do interior da terra; o sossego da zona que permite contemplar aquilo que «só do alto se pode ver»; o arvoredo que confere a tranquilidade; a zona serrana que permite um profundo envolvimento com o meio, possibilitando desfrutar paisagens abertas, algumas majestosas em contraposição com espaços estreitos para visualizar ao mesmo tempo a união entre o azul do céu, por vezes também a neblina branca.
Disseram-lhes em tempo, que nesta pacata vila se costuma vender «os melhores queijos do país» feitos manualmente por mãos hábeis levando a que os seus produtores não precisem de andar por tudo que seja sítio a vendê-los. A fama do que sabem fazer permite-lhes apenas aguardar a chegada de quem de tão longe vem.
 Argumenta, quem os faz, com uma pouco de razão, que a publicidade dos seus clientes é suficiente para «não chegar para as encomendas». Daqui aconselhar a quem não conheça o negócio que «nunca se aventure a fazer qualquer tipo de viagem sem contactar» quem tão bom queijo faz e vende, caso contrário, poderá chegar à localidade situada na encosta da serra e não trazer os seus queijos.
Foi numa destas viagens que o casal e respectivos acompanhantes ao aproximarem-se da “D’Ródão” viram à distância, estendida na berma da estrada uma velha e comprida mala de viagem, daquelas de cartão. Deduziram que a mesma tivesse caído de algum carro, daí, terem parado e apanhando-a para a levarem para o “porta-bagagens” do velho “Fiat” com o objectivo de ser averiguado quem seria o dono ou….ser visto o seu conteúdo já que algo indicava que vazia não estava.
Foi quando alguém de lembrou «Vamos levá-la. Em casa será aberta e logo se verá o que tem ou de quem é». Assim foi. Feita e armazenada a encomenda do mês, no porta-bagagens que levou o queijeiro a espantar-se com tal relíquia, como a dizer alguns piropos menos impróprios para a situação do achado, voltaram para a cidade de onde tinham partido horas antes.
Mal estacionaram a viatura na garagem, a fim de se descarregar as compras, como o achado, depois de fechado o portão não fosse algum curioso pasmar-se com o que visse ou desse com a «língua nos dentes» a mala foi colocada em cima de uma mesa. «Até parece que achamos um tesouro» disse a dona da casa para se rirem numa forte gargalhada.
No momento em que meteram uma faca para rebentar as fechaduras da mala de cartão, de tão ferrugentas se encontrarem, ouviu-se logo um estalido que indicava a abertura. O incumbido de abrir o tesouro fez render a expectativa; o silêncio fez barulho; olhos vindos da escuridão esperavam pela descoberta obrigando a que o viajante mais novo gritasse «Deixe-se de lérias e abra é essa porra!». Ao mesmo tempo ouviram, vindo do cimo, um forte estrondo – era a inquilina do andar superior a partir no chão um tomate congelado.
Todos mudaram de cor, exclamando em coro «a mala está assombrada». Recompostos do susto a mala foi aberta. Apenas continha: duas velhas e sarnentas fotografias de aviões da “Segunda Grande Guerra”; três ou quatro bocados de papelão, do tamanho de uma caixa de fósforos, que indicavam: ser o escriba um forreta ou um qualquer “manga-de-alpaca” já que neles constava os gastos feitos em “compras para casa no mês de Julho” do longínquo ano de mil novecentos e cinquenta e dois.

Em busca do tesouro




                                                                  
Por: António Centeio


Amélia era uma mulher vistosa até ao dia que num acidente de automóvel ficou com mazelas deixando-lhe deformações físicas. Nunca mais foi a mesma. A sua beleza exterior deixou de ter aquele encanto que tanto se orgulhava. Criou em si própria complexos que quando se via ao espelho ficava nervosa. O médico dizia-lhe para consolo do seu espirito «são complexos». Não estava longe da verdade. Continua sendo a mulher linda e encantadora que conheci. O tempo é como uma borracha, tudo apaga. Hoje, é uma pessoa comum não ligando quando a olham. Sempre foi uma mulher empreendedora.
Mesmo sendo impossível deter o rio da vida e sem um centavo no bolso, mas com uma fé infinita, Amélia, continua a ser aquela mulher que sempre admirei tanto em corpo como em alma. Abriu uma clinica médica onde existem as mais variadas especialidades.
Antes do acidente, costumava dizer que existe uma linguagem universal que está para além das palavras. Se nós aprendermos a decifrá-la conseguiremos compreender o mundo. «Tudo é uma coisa só» dizia.
Sempre disse que nunca se casaria. Entende o casamento como um contrato burocrático com um pouco de hipocrisia à mistura. Mas o seu companheiro é algo que Amélia muito preserva. Como vontade é coisa que não lhe falta, busca algo que deseja e acredita. Agora dedica-se também à filosofia com a companhia dos amigos mais chegados. São noites que perdemos mas que justificam o tempo gasto. Usamos para discussão «O Mundo de Sofia».
Cita com frequência Jostein Gaarder. A melhor maneira de nos iniciarmos na filosofia é colocar perguntas filosóficas. Como se formou o mundo? Haverá uma vontade ou um sentido por detrás daquilo que acontece? Haverá vida depois da morte? Como podemos encontrar resposta para estas perguntas? E, acima de tudo, como deveríamos viver?
«Estas perguntas foram colocadas desde sempre pelos homens. Não conhecemos nenhuma cultura que não tenha perguntado quem são os homens e de onde vem o mundo. As perguntas filosóficas que podemos colocar são muitas mais» para continuar a argumentar que a «história oferece-nos muitas respostas diferentes. Mesmo hoje, cada um deve encontrar as suas respostas para estas perguntas. Não podemos saber se Deus existe ou se há vida depois da morte, consultando a enciclopédia. A enciclopédia não nos diz como devemos viver. Mas ler o que outros homens pensaram pode no entanto ser uma ajuda, se quisermos formar a nossa própria concepção da vida e do mundo». Continuava a citar «A capacidade de nos surpreendermos é a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos»
Às vezes temos a impressão que há uma misteriosa energia que nos une ao mesmo tema. Alturas existem que até estranhamos os nossos próprios instintos. Até Dudu a mascote de Amélia, que nos faz companhia, dá sinais para estarmos preparados para as supresas da vida.
Um dos nossos amigos costuma filosofar «cada homem deve procurar o seu tesouro para que o encontre. Os sinais farão o resto».
Numa das muitas noites dos nossos serões, Amélia disse-nos «numa altura da nossa vida tudo é claro, tudo é possível, não temos medo de sonhar e desejarmos aquilo que gostaríamos de realizar. Olhem para mim: 1.72 de altura, uma vida de sofrimento, de dor, sem filhos mas vivendo com um homem que me ama e amigos puros como vocês, onde alguns ainda sentem uma paixão por mim, não me devo sentir feliz?»
Sabia que algo lhe ia acontecer no dia que ia buscar o seu diploma a Lisboa. Desconfiou da emoção que sentiu quando recebeu na entrega do papel que lhe daria o resultado do esforço durante quase sete anos, mas não compreendeu o que sentia. Quando próximo de Aveiras viu vir um veículo pesado contra o seu carro é que se lembrou daquilo que não sabia mas que tinha pressentido.


CANSADO DE SUBIR E DESCER ESTAS ESCADAS


Mas só elas me levam à parte de baixo do melhor da minha terra.
Quando as subo para chegar à avenida mais linda do meu burgo já o outro lado do mundo não é o mesmo

Porque gosto


Porque sempre gostei,
Porque foram os primeiros que usei.
Porque me faz feliz.

As palavras ditas por ti são as mais bonitas


Gosto de te ouvir
Gosto da tua voz rouca 
E do teu riso
Mas gosto mais da forma como amas
Ou...
Como me amas.

TINHA 14 ANOS QUANDO ME APAIXONEI POR TI




Não passou de uma paixão.
Recorda-me como eu te recordo.
Como sabes, todas as paixões passam e apagam-se, excepto as mais antigas, aquelas da infância

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Meu velho amigo e camarada Parente




Por: António Centeio


Estava ausente quando soube da notícia do falecimento do meu velho amigo e camarada Parente. Ao receber a informação da fatalidade a minha alma transfigurou-se de tal forma que as lágrimas se derramaram pela face como tivesse sido molhada por uma torrente de água. De imediato regressei para que não faltasse ao seu funeral. Assim aconteceu.
Ainda criança quando via a minha pessoa chamava-me logo para saber onde andava e o que estava fazendo. De seguida dava-me conselhos de toda a espécie para que quando um dia “fosse um homem, soubesse honrar quem me deu vida” porque “estes mereciam tal coisa”. Marcou-me profundamente. De tal forma que o considerava como o “meu melhor protector e o melhor professor das coisas da vida,” quer pela sua experiência como ainda pela maneira de falar e sabedoria. Eu era a criança que ele adorava. Encarava-me como seu “favorito” talvez pela amizade que o unia a meu falecido pai como a estima que a minha família lhe merecia.
Sobre a sua pessoa, lembro-me de ouvir as mais variadas e pitorescas histórias que fazia como o imaginasse numa espécie de centurião romano ou um musculoso homem de outro planeta em virtude de seu enorme corpo e cara de respeito que apresentava para com todas as crianças. Algumas não passavam de lendas mas outras eram verdadeiras. Que eu saiba nunca casou e muito menos viveu com mulher alguma mas sabia -porque me disse – que visitava de tempos a tempos a “casa das meninas” onde satisfazia as suas necessidades. As histórias originárias destes encontros ensombraram durante algum tempo a minha imaginação sobre os prazeres da luxúria como me espevitava o caminho para a curiosidade de saber se na verdade a coisa era tão boa como Parente dizia. O tempo se encarregou de ensinar que na verdade ele era um “mestre na arte”.
 Originário de famílias de posse, bem cedo se separou de quem o estimava, dispensando ao mesmo tempo a fortuna que os “seus lhe tinham destinado”. Sempre quis viver do que ganhava e levar a vida que gostava. A sua liberdade por preço algum trocou, ao ponto de feito homem, os familiares se envergonharem da sua situação precária e das pobres condições em que vivia. O que lhe interessava era a sua felicidade. Pura e simplesmente marimbava-se para o que diziam e pensavam dele. Sempre satisfeito com a vida ensinava aos mais pequenos – tipo de gente que adorava «nunca devemos deixar de ser aquilo que somos mesmo contrariando a vontade ou os desejos dos outros”. As crianças quando o viam na rua era como vissem o deus dos deuses. A gritaria entoava pela rua e toda a gente ficava a saber que Parente estava rodeado dos mais pequenos. Era a sua alegria e felicidade. Os seus enormes dentes mostravam a grandeza da sua alma. Um homem pronto a fazer e a dar o seu melhor pelos outros sem nada querer em troca.
Quando me fiz homem e iniciei o percurso da vida Parente seguia-me de perto. Se por alguma razão a ausência do seu predilecto se prolongava ia recolher as informações necessárias para saber do ponto da situação: se não lhe agradasse o que ouviu, desbravava caminhos e encruzilhadas para me ver ou aconselhar daquilo que considerava o “melhor para mim”. A experiência da vida ensinou-me que os seus conselhos eram os melhores e os mais certos.
Do meu velho amigo e camarada Parente nunca me esquecerei daquilo que sempre ouvi dizer como algumas vezes cheguei a testemunhar:
 Decorria a década de cinquenta do século passado. A sala do cinema compunha-se de várias filas de cadeiras. Distribuídas por classes, davam-lhe os nomes de: “Geral (que chamavam também de piolho) Plateia, Balcão e Camarotes”. No primeiro andar, tipo meia-lua, o “Primeiro e Segundo Balcão”; nos cornos da lua, encaixava-se uma meia dúzia de camarotes, a puxar para o finório com a ajuda de carteiras bem recheadas. Era o espaço dos senhores janotas e das madames vistosas. O “camarote” mais distinto estava reservado “perpéctuamente” ao fiel cliente, conhecido por Parente.
A alcunha, vinha por esta figura, considerar nas outras, um laço familiar como que, sendo todos descendente da mesma espécie. De pouco valia argumentar. A origem da família, para o Parente estava escarrapachada no Livro do Mundo a que chamava de Divino. Se em causa fosse posta a sua teoria, enviava os contraditores para a casa do pároco, que mais do que ninguém lhe servia de testemunha.
Um homem aí na casa dos cinquenta. Bem encorporado, possuidor de uma voz rouca que até fazia estremecer quando levantava o timbre. Solteiro, residente numa casa térrea, de uma só divisão, onde numa das paredes tinha pendurado uma velho relógio de capelinha, que para a rapaziada com menos de uma dezena de anos «era um rato amigo do dono que dava corda ao marcador de horas». Com profissão desconhecida mas sempre com uma carteira apetrechada de trocos. Os suficientes para gastar a seu belo prazer e dar a quem só ele entendesse necessitar.
Homem estranho, gozado pela canalha mas temido pelos grandalhões ou seus iguais, de alma, porque fisicamente estavam a léguas de distância na força e tamanho.

Agarrava em duas sacas de cimento de cada lado do corpo – pesando cada uma cinquenta quilos – seguras pelos braços que ao subir a escada em vez de ser ele a cair com tal peso, eram os degraus que se partiam. Homem estranho como esquiva era a sua maneira de viver.
Mal abria as portas do “Cine” Parente tinha que ser o primeiro a entrar. Ia directamente para o seu “camarote”. Sentava-se, cruzava a perna, para de seguida começar a ler o jornal, com os seus óculos de sol – lentes bem escuras – que o acompanhava quer fosse de dia quer noite, Inverno ou Verão.
A sala ia enchendo, vendo-se aos poucos, as cadeiras – conforme os bilhetes iam sendo rasgados pelo porteiro – a dar forma no interior da casa de espectáculos como a garantir aos pagantes que a sessão ia ser boa; o contrário era sinal de má escolha. Na hora anunciada desligavam-se as luzes para logo rodar a fita da sétima arte.
Parente pouco ligava à rotina como ao desenrolar do filme para continuar a ler o tabloide, vindo de não se sabe donde.
De algures, ouvia-se uma voz «Oh Parente, está a ler às escuras!». Ria-se para dobrar o jornal, metendo-o de seguida no bolso de casaco. No intervalo, era o seguimento do que não foi acabado.
Mais uma vez a voz estranha clamava « Parenteee!....., o jornal está ao contrário! Está a ler as notícias de pernas para o ar!» E, estava mesmo, porque o Parente não sabia ler. Apenas gostava de exibir a sua ignorância – para os outros – de homem simples com sonhos de grandeza como os seus cultos vizinhos de camarotes situados a bandas do seu – os debaixo, eram da classe média.
Era boa pessoa. Continuamente sorridente mas inseparável da sua gasta folha de periódico como dos seus velhos “Óculos de Sol” comprados por tuta-e-meia em qualquer banda que nem ele próprio sabia. «Comprei-os a um contrabandista que por aqui passou, depois de finda a Grande Guerra». Verdade ou mentira, nunca se apurou.
«Aí está ela!» 
Era a Sara Montiel a artista preferida de Parente e a personagem principal do filme. A “Plateia” batia palmas ao Parente salvo quando os do baixio apanhavam na cabeça as cangalhadas e cascas de amendoins que a classe finória mandava para o vazio.
Era logo um banzé na choldra. Neste momento o corpanzil do Parente erguia-se em plena escuridão para admoestar a populaça «calem-se suas cavalgaduras que quero ouvir a Sarita». Calavam-se mesmo.
Velho e amigo camarada Parente como a sua ordem era respeitada, mesmo que lá no fundo, todos gozassem com as saídas inesperadas do Parente.
Uma figura castiça que memorizou histórias do arco-da-velha nas gerações seguintes; história adulteradas que inferiorizam Bocage.
Belo dia de Carnaval, subiu com a sua pasteleira, até meio, a íngreme rua. O restante foi a pé, segurando o transporte pela mão, levando em cima do guiador do velocípede, um par de cornos, comprados na manhã do dia, no talho do Felismino.
Chegado ao cimo, monta-se em cima do selim, seguro pelo quadro de aço alemão e assente em duas rodas com locomoção humana, para descer com toda a sua força muscular, muito própria de quem a tinha, ganhando uma velocidade tonta. Às tantas perdeu o equilíbrio para se estampar de rejeitada em cima do passeio empedrado. Como caiu como ficou. O corpo todo estendido assustou o mulherio que gritou logo por socorro. Tinha havido um acidente grave: a vítima não era nem mais nem menos do que o Parente.
«Ai que o Parente morreu! Chamem uma ambulância»
Estavam os maqueiros colocando o folião na maca, quando o morto se levanta, gritando «Alto e pára o baile, que o artista nunca morre no filme!»
Aquilo é que foi uma gargalhada. Só o Parente para fazer uma cena destas. Durante semanas, logo conhecida a coisa da canalha, foi o tema mais falado na escola.
Parente foi durante anos o ídolo da criançada. Bastava ser visto por um, logo outros se juntavam em grupo como bando de pardais.
Quando um dia correu a noticia que Parente «foi desta para melhor» – ainda por cima no dia dos finados – toda a gente das redondezas fez questão de acompanhar o corpo à ultima morada. A figura mais típica da terra, quando dentro do caixão, foi cercada por pessoas, que ele próprio se fosse vivo, nunca tinha visto de lado algum.
Quem gostava de andar em cima da terra passou a estar debaixo dela. Muitas lágrimas se derramaram naquele dia de infelicidade e muitos lenços foram lançados para cima do baú rectangular de côr castanha.
Aí, meu velho amigo e camarada Parente todos te recordam e todos nós falamos de ti, como no nosso meio estivesses.
Recentemente, no Carril, depois de passadas algumas dezenas de anos, após a sua morte, colocaram seu nome e alcunha numa rua para que seja lembrado enquanto a memória dos vivos recordar o Parente. Vale mais tarde do que nunca.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

PARA QUE NUNCA TE ESQUEÇAS



De quando íamos os dois à “nossa” gelataria comprar os melhores gelados do mundo.
Para que nunca te esqueças dos momentos felizes que tivemos enquanto nos amámos.
Quando vieres, do cais e  chegares ao fim do paredão atravessa a rua e entra na Praça Sousa Oliveira.
Segue  em frente.
Quando chegares à “rua dos restaurantes” (aquela que nos leva ao 'elevador') na esquina está a gelataria.
Entra e olha para a montra que está bem à tua frente.
Verás o nosso gelado.
Quando o tiveres na tua mão  lembra-te de mim e do quanto te amei.
Ontem estive ai.
Comigo levei uma outra   'meia parte'
Aquela que nunca  verás 
Lembrei-me de ti e do nosso amor.
Chorei pelo que te amei
Amanhã quando lá fores
Vais chorar por mim como eu chorei por ti
Sei que assim vai ser.
E tenho a certeza que te vais sentar na cadeira onde  me costumava sentar para depois  olhar para os teus olhos
Os mais lindos do mundo
Nunca apagues da tua memória o nosso amor
Fomos felizes
Tudo acabou

NÃO SEI DO MELHOR DE MIM…



Porque a minha meia parte foi-se embora.
Não sei para onde foi
Não sei por andará

HOJE NÃO SAÍ DE CASA





Nem saio.
Tenho estado no meu cantinho
A pensar se
Serão os meus olhos mais bonitos do que os teus
Ou se os teus mais do que os meus.
Vem até mim mostrá-los


AS SAUDADES DE MARIANA





Por: António Centeio

A vida prega-nos partidas. A nossa mente faz-nos lembrar coisas passadas e decorridas ao longo do nosso percurso da vida.
Quando era menino aprendi que apenas queria como amigo o amor. Assim fui e vou vivendo mesmo sabendo que tudo não passa de uma ilusão. Previ sempre as necessidades antes de se manifestarem. Nasci assim que hei-de fazer?
Olho para as pessoas e sei logo quem são e o que querem. Certas vezes até pensam que vivi com elas numa qualquer vida passada. Começamos a falar e rapidamente concluo que a nossa linguagem é igual para pouco tempo depois saber que somos do mesmo mundo porque as nossas palavras e pensamentos são comuns. Tenho a capacidade de ficar logo amigo de quem ainda mal me conhece. Mas as partidas da vida são uma armadilha. Cria-se entre nós um elo que jamais nos separará.
Foi num casual encontro que nos conhecemos. Olhamos um para o outro e os nossos olhos falaram por nós. Quando lhe falei pela primeira vez disse-me que se chamava Mariana para logo de seguida acrescentar que a «origem do nome» provinha de «uma palavra hebraica» com junção de duas palavras. Acreditei nela. Curioso como sou, fui descobrir que correspondia à verdade. Não bem como se prenuncia e escreve mas parecido porque o hebraico é algo difícil de interpretar. Adiantou-me também que o nome era «uma homenagem à sua avó, nascida a criada no meio do Atlântico». Uma avó que lhe deixou «lembranças de uma boa companheira e amiga de infância».
Mariana fala pelos cotovelos. Ainda hoje julga que todas as pessoas conspiram contra ela. Quando casada, todos eram seus amigos mas com dois casamentos falhados no seu curriculum os casais não querem a sua companhia. Dizem – as mulheres – que «é meio caminho para roubar a pessoa amada».
A sua formação superior fez com que bem cedo soubesse dar valor o que  é criar um filho e dar-lhe um curso sem a presença do pai ou do seu substituto. Poeta que é, sabe dar valor às palavras e o que delas se pode obter. Sente nestas a subtileza mas que nem todas as pessoas compreendem.
Quis o destino separar-nos por alguns anos. Quando nos reencontramos foi como o nascer de um filho. Fizemos logo uma promessa junto da estátua do “Navegador”. Entre nós dois «nada poderá haver fisicamente, mas apenas confidências, segredos, amizade e uma grande cumplicidade. Nada mais do que isto» para depois logo acrescentarmos «nunca se deve ceder às nossas fraquezas ou outros desejos».
Mariana é uma mulher linda e sensual. A sua vincada personalidade seduz qualquer mortal. A sua maneira de olhar para quem olha para os seus olhos verdes é a sua arma de serpentear os pensamentos incertos na mente dos homens. Seus cabelos compridos e sedosos são a sua maior riqueza.
O Céu estava carregado de nuvens escuras. O horizonte fazia com que as nossas almas ficassem melancólicas. Sentíamos uma força interior que remexia nos nossos corpos. Falamos do nosso passado e da filha que teve, fruto de alguém que fez parte da sua vida mas que não foi nem é a sua vida. «O melhor que fazemos é não voltar a cruzar os olhos com o dos nossos amores perdidos. Especialmente com aqueles que nunca o foram e não passaram de um belo sonho que um dia acalentámos no fundo do nosso ser». As lágrimas correram-lhe pela face. «Se hoje fosse viva seria uma linda mulher!». Senti nas suas palavras a dor que sente quando se lembra da sua “filhota”. Sei a mágoa que tem nas suas profundezas pela perda. Era o elo que a ligava à vida.
Depois do testemunho prestado junto do símbolo a nossa conversa parecia interminável para ao mesmo tempo sentirmos uma atracção sem explicação. De tal maneira que passadas algumas horas, sem qualquer explicação, os nossos corpos envolveram-se na transparência da areia enrolando-se um no noutro para acabarmos a descer até à água do Oceano encobertos pela força do amor com o testemunho do nascer do Sol.
Quando o Sol nasce e estamos junto do mar tudo é infinito. Só nesta altura compreendemos os mistérios da grandeza que a natureza nos esconde. São estes encontros sublimes na junção de dois corpos que fazem com que a vida tenha outro significado.
Claro que aquilo que prometemos um ao outro acabou por ser impossível, mas o contrário faz com que a vida não faça sentido. O mundo é composto de fragmentos místicos devendo nós apanhá-los para que possamos compreender o seu significado. «Houve em tempos um fazedor de marionetas. A sua casa era um museu de obras-primas. Todas feitas com paixão e amor. Os anos passaram e a sua casa estava cheia destes pequenos bonecos.
Só, certo dia adoeceu. Não tinha ninguém que o ajudasse. Quando a escuridão entrou nas suas paredes cheias de recordações foram as marionetas que o encaminharam para a longa viagem porque só ele lhes soube dar o tal amor e vida. Só ele compreendia e sabia que as árvores também têm vida. Eram a Alma do mundo» dizia-me muitas vezes Mariana para que pudesse compreender a razão das coisas e os seus sentidos. «O mundo é composto de fragmentos místicos devendo nós apanharmos estes para que possamos compreender os seus significados».
No bater das ondas e na espuma vinda das suas profundezas falávamos muito sobre o mistério da vida e da ingratidão das pessoas. Mariana com a formação que tinha e um quoficiente de inteligência acima da média sentia-se ressentida com certas atitudes do ser humano. Fazia com que eu compreendesse o âmago das raízes para melhor puder compreender a razão das coisas. Só eu a sabia compreender. Estava-me grata por isso.
Um dia viria a saber que a gratidão também tem o seu preço. Os seus problemas passaram a fazer parte da minha vida recebendo em troca os meus. A amizade aprofundou-se ao ponto de já não haver segredos entre ambos.
Nas longas caminhadas que fazíamos pela grande avenida deleitando o cheiro do mar ou nos dias quentes em que à noite passeávamos pelo grande jardim frontal ao “Centro Cultural” com a companhia de “Alex” o poder do mar e o brilho da bola do Céu aconchegava o nosso interior.
Outras vezes escondíamo-nos do mundo juntinhos ao mar. Logo que as estrela apareciam ficávamos ouvindo o rebentar das ondas para ver ao mesmo tempo o mar roubar a areia que horas antes tinha sido calcorreada por estranhos. Enrolada a mim dizia-me junto do ouvido: «quando uma coisa nos magoa em pequeninos ficamos muito sensíveis às atitudes e críticas dos outros. Sofro muito! Não me desampares porque só tu me sabes compreender». Sentia a sua fragilidade. Era como fosse um bibelô. Encolhia-se nos meus braços para que protegesse.
Quantas noites não adormecemos na praia para acordarmos quando o Sol começava a radiar tudo ao nosso redor com o cantar das gaivotas que voavam para onde estava o seu alimento. Erguíamos os nossos corpos para de seguida só pararmos numa padaria junto do mercado onde a frescura do pão satisfazia a nossa saciedade.
Hoje temos medo que tudo acabe de repente porque o relógio pode parar. Sentimos mais do que nunca que caminhamos juntos para a meta final. Temos a certeza que os nossos corpos jamais terão a força de nossa juventude levando com que saibamos aproveitar todos os momentos que a vida nos oferece para quando os nossos corpos se separarem, as nossas almas se possam enlaçar como as rosas que lhe ofereço quando sei estar triste e as saudades do passado a atormentam.

LEVA-ME CONTIGO



Tu que andas sempre a viajar
Tu que percorres o mundo várias vezes
Quando fores à América
Leva-me contigo para ver se os prédios são tão altos como vejo na televisão

domingo, 2 de agosto de 2020

HOJE TIVE SAUDADES DO TEMPO



Hoje quando viajava a caminho do meu destino tive que parar o carro porque o sinal estava vermelho.
No passeio e, de frente vinha um casal a passear.
Com ele o filho.         
Foi quando me  lembrei do tempo,
E das saudades do tempo.
O tempo levou-me o tempo em que passeava com a  minha  mulher e a nosso lado  o nosso filho nos acompanhava.

OBRIGADO MIÚDA LINDA



Hoje mal abri a porta da minha casa, do puxador, caíu um saco.
Mas que estranho, pensei eu.
Apanhei-o.
Quando o abri, dentro, tinha uma embalagem.
Abri-a.
Em cima do conteúdo, palavras bonitas escritas.
“Meu amor são para ti.
Não te chamei nem te avisei para te fazer uma surpresa.
Continuo a adorar-te.
Vou a caminho da cidade grande  mas contigo no meu pensamento.
Esta noite  vou dormir nos teus sonhos.
Quando regressar prometo-te que venho ter contigo.
Quero-te beijar
Tenho saudades da tua Língua”
Conteúdo da embalagem.
‘Linguas de Veado’.
Doces como doce é quem as deu.
Tive que me rir.
Joana, continuo a gostar de ti e das tuas surpresas.
És malandra....
E...
Ainda bem que não te vi, porque hoje...
Apetecias-me

sábado, 1 de agosto de 2020

Ajudar os outros



Por António Centeio


Se as pessoas não são capazes de ter a força suficiente para aguentar a passagem da tempestade como é que poderão valorizar as mudanças interiores que tantas vezes são necessárias para o que desejam tenha outro significado?
Foi isto que sempre faltou a Mariana, fazendo com que a sua vida como os seus sonhos, quase nunca se concretizassem.
Bem cedo abriu as portas a toda a espécie de contrariedades que só acontecem a quem não sabe que a vida, como as ondas do mar, tanto sobe como desce.
Passou  a ter como companhia os dissabores do infortúnio para exclamar constantemente que a  “vida nada de bom” lhe tem dado. O caminho da sua desalinhada e pobre  personalidade como do ambiente em que foi criada, contribuiu para que quase tudo viesse ter com ela.
Quando já se encontrava à muito no «fundo da vala» foi então que   finalmente viu o brilho de uma estrela, que no Céu, iluminava quem mais parecia um farrapo que um ser humano.
Sentiu no seu interior que  «lá de cima» qualquer coisa lhe  iria acontecer – para o bem ou para o mal.
Para quem tem como companheira habitual a aspereza da vida, é difícil acreditar nos sinais que muitas vezes se escondem por detrás de uma estrela.        
A sua voz interior disse-lhe  “o que sentiste  era algo que nem todos podem  ver ou sentir”. Foi quando se lembrou que tinha sido uma estrela que levou os reis  magos a caminho de Belém.
A sua alma sorriu enquanto o seu corpo se arrepiava. Pela primeira vez na sua vida, cheia de mazelas, sentiu e tinha tido a noção de ouvir  algo que até à data nunca tinha julgado ser possível. A não ser que...“fosse mais uma partida do destino”.
Mas, se até sentiu um arrepio, porque não acreditar naquilo que desconhecia  ou funcionava? Foi quando se lembrou que antes das tempestades, o “Vento  avisa para se recolher”.
Cinquenta anos. Como companhia, o contrário daquilo que sempre  sonhou. Ter uma aranha ou um ratazão como companhia para ela  eram coisas mais que suficientes para voltar as costas de vergonha a quem de igual julgava ser.
Nas manhãs frias em que até o Sol  parecia nada querer com ela ou de tão pouco lhe fazer companhia, sentava-se em cima da verdura que lhe servia de lençol para olhar para o vale que na sua frente convivia de espanto para com a natureza. Esta combinação era o contraste do  que sentia dentro  nas suas profundezas de ser humano que era, mexendo na sua dor e recordando-lhe as agruras da vida, as quais, eram as suas melhores companhias.  Quando a bola de fogo descia, então a sua alma falava-lhe para lhe dizer que estava triste e que devia plantar frutos na terra para que  conseguisse mudar as coisas.
Muitas vezes, quando olhava para a estrada, que ficava tão distante, mas ao mesmo tempo tão perto, costumava ver  as pessoas vestidas de negro ou de cinzento acompanhando o carro que no seu interior levava algo rodeado de flores.
Nestes momentos olhava singelamente  para o   horizonte e pensava:  “às  vezes o mundo troca as voltas às pessoas” ou então  as “pessoas não sabem trocar as voltas ao mundo”.
Até os passarinhos olhavam para ela e viam os seus olhos turvos  e a fronte enrugada com marcas profundas de sofrimento para  pensarem ao mesmo tempo, que a continuar assim, um dia a sua alma iria depenar lá para longe, para depois ficarem  sem a companhia de quem já sabia e conhecia o significado dos seus chilreares.
Às vezes temos as coisas na nossa frente e não as vemos. São nestes momentos de descuido que a vida nos passa ao lado. Se as vermos, então encontramos o nosso caminho que nos levará à busca da razão de viver. É este o sublime momento de sabermos suportar a passagem da tempestade.
Mariana sabia que o «brilho» queria  dizer-lhe qualquer coisa.
Que quereria o brilho dizer-lhe? “Que tormento me espera depois de viver constantemente no meio da turbulência?” –perguntava a si própria.
“Oh! mortalidade, porque não me buscas? Chamo-te para junto de mim e nunca ouves as minhas palavras. Deixa-me ir para junto de ti. Lembra-te de mim!” eram as palavras que costumava gritar quando a raiva explodia dentro do seu ser.
Despedaçada interiormente pelo que era,  sabia que o seu futuro continuava ameaçado. Foi quando no silêncio do vale e no barulho do silêncio,  ouviu uma voz dizendo-lhe “inicia o teu percurso  porque a noite é apenas uma parte do dia   e acredita na tua fé porque estiveste mergulhada tempo demais na escuridão. Ergue a tua cabeça e não desprezes a tua personalidade. Sê tu mesmo! Nunca mais deixes de ouvir a tua voz interior e conhece os sinais  que a vida te vai dar, para nunca mais dizeres que nunca os vistes”.
Com o que  ouviu e com  a confiança que ganhou em si própria mergulhou na noite escura atravessando a floresta que a separava da estrada.
Mariana soube construir um mundo muito especial para aqueles a quem a vida nunca tinha  sorrido.  “O mundo está sempre em mutação” dizia
Soube construir estruturas para que aos mais desfavorecidos nada falte  como soube ensinar as pessoas a ajudarem-se  a si mesmas.  Mandou plantar campos floridos  e campos de trigo para que nas noites de luar pudesse ver na obra  que fez e na companhia dos que mais precisam, os sinais que costumam estar no brilho das estrelas.

Adalberto, um amigo porreirão




António Centeio

Adalberto é um patusco e amigo da galhofa. Garganeiro, por defeito, não deixa de ser boa pessoa. Amigo de seu amigo está sempre pronto para a brincadeira. Leva os dias vagueando, no bom sentido, pelas ruas e ruelas da cidade, falando com este ou com aquele.
Pergunta a uns como vai a agricultura, a outros como vai a família e aqueloutros como vai a situação, porque segundo os seus conhecimentos, a coisa vai preta por causa da crise que o mundo atravessa, ou que atravessamos por via das asneiras dos outros. A haver baboseiras, será sempre dos outros e nunca de nós.
Excepção, nos dias úteis, é o dia seguinte à segunda-feira. Dia de romaria e cavaqueira.
Levanta-se bem cedo para assistir ao iniciar do dia a fim de poder ver a montagem dos vendedores ambulantes no espaço a que alguns chamam de «Mercado Semanal».
Os outros afirmam que não «será por muito tempo» para acrescentarem os que nada sabem «era o que faltava! Um terreno valioso como este, de tão bem estar situado – tendo uma ocupação semanal pelos vendedores onde nem factura é exigível para quem vende as mais diversas coisas, algumas, vindas de não se sabe donde – ser utilizado para outras coisas ou encher a carteira a algum especulador».
Adalberto percorre com a sua calma de alentejano todo o espaço, sempre de tronco erguido. As mãos por detrás das costas, seguras uma na outra, não vá perder alguma ou algum amigo do alheio tirar-lhe dos dedos ou do pulso aquilo que lhe foi oferecido, como do que representa.
Ouve aqui e acolá, para além ajuizar com velhos amigos o que antes ouviu. Assim pode ouvir o botar palavra de terceiros como fazer o seu próprio juízo, que nos dias que correm é preciso muito, se tomada em atenção for a idade da pessoa como dos que se juntam.
Por volta da metade do meio-dia, conforme as horas ou ponteiros, vai arrancando a caminho de onde alguém o espera para lhe dar o merecido, mas obtido dos rendimentos adquiridos em tempos passados por conta de outrém.
Aqui, nas poupanças que uma entidade qualquer a que chamam de Estado, acrescidas de rendimento que deveria ter obtido, é que os dias lhe parecem estar a ficar cinzentos demais, porquanto ouviu de um sabichão que pelo andamento que a coisa leva, qualquer dia nem para a sopa já chega.
Ralha como um desalmado com tudo e todos que o rodeiam, dando a impressão que são os culpados, mesmo que a sua velha Carminda, companheira que é para um ror de anos, se compadeça sempre das malcriadices que vem da boca de quem tanto sabe.
Quando nas noites de tertúlia livre, que obriga os vizinhos do bairro a conviver todos na roda da mesa da sueca, falando os cujos do que todos falam, a noite passa a ser agoirenta para ficar também sem estrelas porque o futuro está ameaçado por quem manda poupar mas não rentabiliza, o que na sua posse está, ou não rentabilizou em devido tempo, aquilo que deveria ser o sustento e segurança para quem trabalhou, tornando a posteridade dos mais novos como um mergulho em águas baixas do rio.
Destas discussões, o resultado foi, segundo os pareceres do Adalberto, ficar sem efeito a excursão, e as futuras, que estava marcada para o mês do ano com menos dias, aconselhando a quem o ouvia, que «estas passeatas deixem de ter efeito imediato para serem substituídas pelas Termas do Cartaxo».
Mais do que nunca, temos que começar a sermos forretas, já que no presente, até os bancos já estão a dar um “chouriço a quem lhes der um porco”.
Como a carne até já vem embalada ou «fechada hermeticamente» como consta nos rótulos nos espaços comerciais maiores que o «Municipal» dificilmente haverá o enchido que todos querem.
A conclusão, com lógica do amigo patusco e galhofeiro, é que o futuro está a ficar preto demais para quem trabalhou e foi obrigado a dar à entidade responsável o «guardar uma parte daquilo que não queria para que da poupança um mealheiro tivesse nos dias do fim da vida».
 Aos que argumentam o contrário, que se cuidem, porque os saloios costumavam dizer no tempo que os excursionistas do Adalberto e seus confrades iam – ali para os lados de Mafra mesmo que o motor da camioneta fizesse o caminho todo a dar «ráteres» que mais pareciam petardos de S. João – ver o convento, para depois no fim da viagem ou do dia, acabar tudo nos comes e bebes: «Quando começares a ver as barbas do vizinho a arder mete as tuas de molho».